Um momento normal

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Ela defendia a calma e a harmonia. Na melhor das hipóteses, dava um grito ao ouvir a sua artista favorita. Durante o seu êxtase, perdia um pouco o controlo, esperneava, corria pela casa e era capaz de, aqui e ali, de dar uma palmada forte à almofada ou à parede do quarto. No fundo era a forma de extravasar, tanta emoção contida (ela não via as coisas assim) teriam que sair por algum lado, de alguma forma e em algum lugar. Lá fora, com os outros, nem um suspiro ou um dedo em riste, tudo era morno, passivo e bastante aborrecido, é importante dizer.

A outra ela, a amiga, vivia na antítese. Não era pessoa para dar a outra face e se havia alguma coisa que esta outra ela não gostava, então quem estivesse à sua volta iria de certeza notar. A outra ela levantava a voz, reivindicava, ripostava, não se ficava. No outro dia, vejam bem, foi abordada pelo patrão, atirou este um comentário a roçar a critica: "Se publicitarmos os outros perante os nossos clientes vai ser bonito vai...". As palavras caíram dentro dela como um meteorito. "A mim não me diz você isso! Se o fiz foi por uma boa razão. Você não sabe nada do que se realmente passa. Venha mais vezes e aprenda a vender!". O argumento soou como uma trovoada em campo aberto. Toda a gente ficou a saber que quem com ela semeia vento, então colhe tempestades...

Elas encontraram-se depois. Repararam uma na outra e gostaram do que viram. No fundo, e por detrás da apresentação, havia algo nelas que cada uma delas invejava na outra. Uma sentiu-se mal pelo sentimento inoportuno. A outra arregalou mais os olhos. Havia nela uma tensão. Queria zangar-se mas não conseguia. Queria pelo menos exprimir algo, uma emoção, uma expressão rasgada, um dedo em riste. Mas nada, nada saia... O momento morreu ali. Passado cinco minutos decidiram ir lanchar e passar um momento... normal.

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